Coluna de Eduardo Matzembacher Frizzo

Duas observações sobre a esquerda brasileira
13 de Maio de 2017 às 08:00

1.
Os progressistas brasileiros, sejam de extrema-esquerda, esquerda, centro-esquerda ou mesmo aqueles que flertam com a posição liberal, precisam entender que construir um discurso apenas reativo e não propositivo, não levará a lugar algum. Isto é: não adianta só reagir e demonstrar revolta, é necessário também apresentar propostas, mesmo que eu saiba que o momento é tenso pra caramba. Mais que isso, igualmente necessitam compreender que apenas demonizar empresários, como se eles fossem papões do Inferno, é um troço besta que só, da mesma forma que é bobo achar que o Estado, sozinho, resolverá nossos inúmeros problemas sociais. A frente progressista também tem que se dar conta que xingar o adversário político de “coxinha”, “fascista” ou “golpista”, somente denota infantilidade política, já que, caso efetivamente queira ampliar sua zona de influência, esse é o mais idiota dos caminhos. Se você acha ruim ser chamado de “esquerdopata”, deveria ter sacado isso. Além de tudo, na minha humilde opinião, enche o saco essa martirização seguida dessa santificação da figura de Lula. Por mais que ele seja um grande líder político e tenha auxiliado o Brasil em inúmeras transformações, o que Lula oferece de novo para voltar à Presidência em 2018? Acho que os progressistas deveriam pensar nisso, mesmo que eu saiba que nem todos, assim como eu, sejam fãs de carteirinha do Lula. Enfim, uma última linha: é necessário olhar para a frente. Essa historinha de ressuscitar um “clima dos anos 80”, de modo isolado, com chamadas de “greve geral” e “mobilização sindical”, ainda que haja legitimidade nos atos, não levará a lugar algum – pois ou os progressistas percebem que os tempos mudaram, ou, em 2018, serão esmagados por um rolo compressor nas eleições.
P.S.: Ah!, e existe pobre de direita sim! – e não há problema nenhum nisso. Quer que esse povo mude de lado? Convença ele de que você está certo – e não é chamando todo mundo de “reacionário” e “conservador” que você conseguirá convencer alguém além da sua plateia de sempre.
2.
A maioria absoluta dos policiais que já conheci, sejam militares, civis ou federais, são honestos, corretos e procuram fazer o máximo para colocar em prática suas obrigações de acordo com a lei, mesmo que, no mais das vezes, contem com péssima estrutura, falta de pessoal e salários congelados. Às vezes cometem erros? Cometem. Esses erros merecem apuração e punição administrativa e judiciária? Merecem. Afinal, policiais, assim como promotores e juízes, não são deuses. Mas esses erros não justificam chamar toda a polícia de “fascista” ou algo do gênero, como às vezes ouço por aí, sobretudo da boca de certos integrantes da extrema-esquerda. Peguemos o caso da Polícia Militar. É ela que está no front de combate à criminalidade e é ela que, reconheçamos, garante a mínima paz para as nossas cidades. Mas não é só isso. Por quê? Ilustro. Aconteceu um acidente de trânsito? Chama a PM. Vizinho está com som alto? Chama a PM. Ouviu crianças sofrendo maus-tratos? Chama a PM. Percebem? O Poder Público possui inúmeras e incontáveis deficiências, mas a instituição que lembramos na hora de um problema geralmente é a PM, sem desmerecer, obviamente, os trabalhos extremamente importantes das polícias civil e federal. Já pararam pra pensar nas toneladas de inquéritos que a Polícia Civil tem que levar adiante? Já pararam pra pensar que costumeiramente faltam servidores e até equipamentos adequados para que tudo isso chegue enfim ao Poder Judiciário? Já refletiram sobre o caráter extremamente complexo da repressão aos crimes financeiros capitaneada pela Polícia Federal? Pois então: é dessa realidade que estou falando. Por isso tudo, não é minimamente adequado ficar sentando o pau na polícia unicamente por seus erros, sem levar em consideração os incontáveis acertos que cotidianamente homens e mulheres policiais colocam em prática em todo o país. Como falei acima, erros merecem apuração e reprimendas adequadas, mas não há lógica em generalizar a concepção de que a polícia é “essencialmente má”. Mudanças estruturais e atitudinais podem e devem ser discutidas com seriedade e embasamento – mas entre admitir isso e ficar regurgitando bobagens a todo momento, existe uma grande diferença.
É preciso ter bom senso e aceitar que sem o trabalho da polícia, não há a mínima condição de vivermos em sociedade atualmente.

Mestre em Direitos Humanos e Desenvolvimento pela Unijuí. Especialista em Docência para o Ensino Superior e graduado em Ciências Jurídicas e Sociais pela CNEC/Iesa Santo Ângelo. Advogado e professor universitário em sede de graduação e pós-graduação no Curso de Direito da Faculdade de Balsas (Unibalsas/MA). Diretor Jurídico da Sociedade Racionalista (www.sociedaderacionalista.org). Editor e responsável pelo blog Não é céu. (www.naoeceu.blogspot.com).

Email: eduardo7frizzo@hotmail.com

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