Coluna de Fabiane Dornelles

Lei da palmada: vamos aplaudir!
09 de Fevereiro de 2013 às 10:00

Muito se tem falado sobre a tal lei da palmada, o projeto de autoria da deputada federal por Roraima, Teresa Surita (PMDB), que já foi aprovado na Câmara, aguarda agora a aprovação do Senado. Os legisladores, legítimos representantes da vontade do povo (ahahahahaha), entenderam que é necessário abolir de vez com os castigos físicos para que sejamos içados à condição de uma nação realmente comprometida com a efetividade dos direitos humanos e a proteção da juventude e da infância, (e quantas crianças ainda morrendo de fome no Brasil “ideal”). Bonito. Muito bonito. Para isso, porém, não lhe deram a oportunidade de participar da elaboração do texto legal, tampouco se valeram dos instrumentos legais de consulta popular, como por exemplo um plebiscito ou então um referendo. Nada disso. Eles vão decidir o que é melhor para o seu filho e quem vai entrar pro pau é você, se não obedecer a Leeeeeeeeeei. Uuuuuuuuuuuhu... Sim, é para ficar com medo mesmo. Com medo das consequências que uma lei como essa pode gerar em uma ou duas décadas. Dentro da sua casa e fora dela.

Mas no que afinal se socorrem os teóricos de um modelo de educação tão progressista quanto este? É o que eu gostaria de saber. O desafio dos educadores – pais, mães, professores – tem sido formar homens de bem numa sociedade já gravemente afetada por uma crise de valores descomunal. Liberdade sem responsabilidade não educa ninguém. Não fomenta o desenvolvimento econômico e social. Não corrige desvios de caráter. Não contribui para a formação de uma consciência elevada. Não ensina o respeito pelo outro. Uma sociedade libertina não corresponde a um ideal de justiça social em que o bem-estar coletivo se sobrepõe ao interesse individual, pois se nada limita minhas vontades e desejos, só o que me agrada interessa, logo, dane-se o outro.

E vejam só que belo exemplo nos deram há pouco (menos de um ano e aposto que você nem lembra mais...) aqueles estudantes de odontologia depredando o patrimônio público, no caso inúteis (será?) orelhões, cheios de orgulho pelo ato de vandalismo. Tão meritória a ação que mereceu ser registrada pelos próprios vândalos. Presos em flagrante, conduzidos à delegacia, boletim de ocorrência lavrado, fiança paga, módicos R$ 3.000,00. Tudo resolvido. E agora? Quem vai por a boca no mundo? Um cidadão “sorriso Colgate” ou um pobre infeliz com dentes cariados? Não faço a menor ideia.

O fato é que jovens de classe média, como esses em questão, representam ainda que de forma indireta o tipo de profissionais que teremos no futuro e também um padrão de comportamento social cada vez mais comum: o desrespeito. E a gora a fraude nos vestibulares. Ai, ai... é desanimador.

Penso que há nada de pedagógico no pagamento de uma fiança, especialmente porque quem paga a conta são os pais. O que estamos ensinando com esse tipo de “sanção” é que o dinheiro é capaz de encobrir o desrespeito e a amoralidade. Ao invés disso, acredito que os rapazes deviam ter sido obrigados (Mas, atenção! Cuidado com o uso dessa palavra em tempos de discursos politicamente corretos, pode soar arbitrário ou excessivo, você pode inclusive ser acusado de intolerante ou descontrolado. Cuidado!), a reparar o estrago que causaram, trabalhando na manutenção do bem danificado, à luz do dia, à vista dos transeuntes. A tão desejada exibição que desejavam alcançar no momento em que praticavam o ato de vandalismo filmado pelo celular de um deles. Isso, ao contrário do que os teóricos progressistas possam pensar, não constitui nenhum tipo de humilhação, isso significa educar de verdade. Obrigar a reparação do dano pondo a mão na massa. Duvido de que a ação voltasse a se repetir. Duvido. Ainda mais, depois da declaração de um deles que fez constar no inquérito policial a ressalva de que só depredou o telefone público porque ficou irritado, já que o aparelho estava “sujo”. E deve ter ficado ainda mais, depois de ter sido tocado pelas mãos contaminadas da impunidade. E haja álcool gel para tantas “bactérias” sociais.

No Brasil, o bem público é considerado coisa de ninguém, coisa sem valor, uma porcaria qualquer, que se destruída não fará falta alguma.. Cultura vergonhosa de um povo atrasado e ignorante, além de alienado. E a pior constatação é a de que a tendência é de que as coisas piorem com o tempo... e é só uma questão de tempo. Infância e juventude fora de controle.

Quem mais vai pagar por isso? Nós já estamos pagando. Lei da Palmada. Vamos aplaudir?!

 Servidora pública estadual. 

Email: dornellesde@gmail.com

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