Fomos ao Beira-rio. Os meninos ainda não tinham assistido um Gre-Nal ao vivo e eu havia prometido a eles. Seis horas de viagem valeriam a pena. Prometi a Elis que seria um passeio agradável para domingo à tarde e planejamos chegar cedo ao Beira-Rio. Afinal, com crianças, em um grenal, é preciso estar pelo menos duas horas antes de começar o jogo.
Cauteloso que sou, já havia telefonado para o Inter e a informação que eu tinha é que com a minha carteirinha de “sócio antigo” teria duas opções: na arquibancada inferior (social) ou na arquibancada superior (cadeiras), mas neste caso, no sol.
Antes de viajar a Elis me pediu:
– Ficaremos nas cadeiras, né amor? Nada de chão duro.
– Querida, o Beira-Rio é um palácio. Não existe mais chão duro. Tudo é cadeira. A diferença é que umas são na arquibancada superior e outras na inferior, chamadas de “social”. Estaremos lá, na social, sentados confortavelmente em cadeiras assistindo o jogo com as crianças. Confie em mim. Sei o que faço...
Chegamos ao Beira-rio. Consegui um bom lugar para o carro. Um tumulto. Os meninos na maior emoção. Primeiro Gre-nal a gente nunca esquece, e, como pai, eu tinha o dever de proporcionar isso da melhor forma possível, afinal, queria que fosse marcante.
Com pouca fila, passamos as roletas e entramos no estádio. Que maravilha. Existe uma energia mágica sempre que você cruza a roleta e entra no Beira-Rio. É como se você se tornasse naquela instante parte de um todo maior. É como se você fosse dono do Beira Rio.
Daí, o problema começou...
Tiraram todas as cadeiras do anel inferior do estádio. Só estavam lá as arquibancadas de concreto, sem nenhuma cadeira ou banquinho. O terrível “chão duro”. Fiquei chocado. Nem olhei para Elis. O que eu iria dizer? Me fiz de louco. Procuramos um lugar com boa visibilidade. Ao sentar, o joelho veio perto da boca. Permaneci mudo. Nem almofada tínhamos trazido. Perguntei para os meninos se queriam um refrigerante. Então ela disse delicadamente:
– Sumiram as cadeiras?
– Pois é... – falei olhando para os lados... – deve ser por causa das obras para a Copa.
Então Matheus, de 9 anos, perguntou:
– Pai, quando é que recomeçam as obras?
– Quer um refri, Henry? – mudei logo o foco da conversa. Não sabia o que dizer. Desde a final da libertadores do ano passado não vinha ao Beira-Rio. Que mudança. Parte do estádio estava demolida. Uma arquibancada estava sendo erguida à nossa esquerda. Uma só. E as obras estavam paradas.
– Mas você não tinha ligado para o Inter e estava tudo certo? Que ficaríamos em cadeiras – ela insistiu gentilmente.
– Vão falar a escalação agora no rádio – desconversei de novo.
– Pai, a gente nunca veio aqui, né? Nesse chão duro – disse o pequeno Henry com 8 anos.
– Tá bom. Tiraram as cadeiras. Elas existiam. Nós sempre viemos aqui, mas eram cadeiras.
– Nunca viemos aqui – disse ela rangendo os dentes.
Virei para o lado. Tinha um cara de boné, palitinho na boca e com uma tatuagem enorme no braço escrito “Só os fortes sobrevivem”. Perguntei gentilmente:
– Moço, por gentileza. Não existiam umas cadeiras por aqui?
– Faz tempo que se foram... – respondeu sem me olhar mexendo o palitinho...
– Viu como tinha, amor! Como eu ia saber que haviam tirado elas daqui?
– Se você ligou para o Inter, deveria saber!
– Ok, ok, ok. Realmente, não me falaram esta parte
– Percebi – disse ela agora com ar irônico.
– Pai, quanto tempo falta para começar o jogo?
– Duas horas.
– Duas horas?
– Sim, viemos cedo para escapar do movimento.
– E esperar confortavelmente nas cadeiras que sumiram... – ela rebateu de novo.
Pensei. Pensei. Pensei. Que sinuca. Levantei a cabeça. Um sol escaldante iluminava o outro lado do estádio. A torcida da arquibancada superior estava no sol. Falei:
– Na verdade eu não queria que você pegasse sol querida. Sabe como me preocupo com você e com as crianças. Daí entre o sol com cadeiras, ou a sombra, mas no chão, optei por aqui. Mas acho que me enganei. Melhor irmos para o outro lado.
Ela levantou a cabeça, olhou o outro lado do estádio, respirou e disse:
– Não, capaz. Naquele sol deve estar horrível. Imagina. Prefiro aqui.
Ufa... Assunto encerrado momentaneamente. Finalmente poderia me concentrar no jogo. Levantei e me alonguei. Então ela largou:
– Está com dor nas costas? Eu não trouxe teu dorflex. Você não é acostumado a sentar no chão.
Não respondi. Nada estragaria aquela sublime tarde no Beira Rio.
O Inter, ganhou o jogo e os resultados paralelos ajudaram. O colorado vai para a Libertadores. Nos abraçamos ao final e eu disse:
– Meninos, ano que vem viremos aos jogos da Libertadores!
E ela encerrou a tarde com a seguinte frase:
– Sim, claro! E não esqueçam crianças, de pedir para o vovô de natal uma almofadinha para cada um.
Das minhas leituras da madrugada : “Palavras verdadeiras podem não ser agradáveis. Palavras agradáveis podem não ser verdadeiras.- Provérbio Chinês
Por Marcos Salomão
Fonte: Jornal das Missões


