Coluna de Oscar Pinto Jung

O rádio dos tempos idos
25 de Julho de 2017 às 08:00

A era de ouro do rádio brasileiro correspondeu às décadas de 40, 50 e 60, quando sucumbiu à força da imagem gerada pela televisão. E ninguém sonhava com internet, celulares, whatsapp, etc e tal... Em todos os lares, um aparelho Telefunken (o mais procurado) e de outras marcas faziam a alegria da família reunida em volta na sala da casa. Sob silêncio total. As emissoras cariocas Nacional (melhor programação, melhores artistas), Tupi e Mayrink Veiga obtinham ótima audiência em Santo Ângelo, como também a Tupi de São Paulo, Record e Pan-americana (especializada em esportes). Tudo com som perfeito. À noite, muita gente ouvia a Rádio Belgrano ou a Rádio El Mundo, de Buenos Aires, ou a Rádio Carve, de Montevidéu.

Nos domingos, a Nacional, a partir de 13:30 horas, apresentava o programa de calouros A Hora do Pato, sob o comando de Jorge Curi, divertia os ouvintes quando o pato interrompia o cantor desafinado ou de admiração para a talentosa cantora. O modelo serviu para muitas emissoras, inclusive para a Rádio Santo Ângelo. Ely Coelho Marchetti idealizou e apresentou a Hora do Trilho, transmitido aos domingos de manhã, diretamente do Cine-Teatro Municipal, com casa lotada. Uma pancada forte num pedaço de trilho que o Marchetti conseguiu na Viação Férrea derrubava o candidato. Com os vizinhos Darwin Gomes Filho e Mauri Antunes Gomes, estávamos lá sentados nas primeiras filas e prontos pra responder perguntas e ganhar brindes.

O Repórter Esso (o primeiro a dar as últimas) resumia em cinco minutos as principais notícias do Brasil e do mundo. Com apresentação impecável do locutor gaúcho Heron Domingues, a Nacional apresentava o noticioso às oito da manhã, 12:55 e 20:25 horas. Meu pai, Oscar Ernesto Jung, agente postal telegráfico, não perdia o Repórter Esso e eu me acostumei a ouvi-lo. Maria Bernardina Oliveira conta que o avô João Medeiros escutava sempre e Dione Mello recorda que o pai Aparício Mello não perdia de ouvir o Esso de jeito nenhum. O mesmo assinala João Felipe Blom Lied, que acompanhava ao lado do pai, Lucídio Lied, exator federal, os últimos acontecimentos mundiais.

A influência da Nacional era tanta na Capital das Missões que a gurizada torcia mais pelo Vasco, Flamengo, Fluminense ou Botafogo do que pela dupla Gre-Nal. Explica-se: as emissoras de Porto Alegre chegavam aqui com sinal muito fraco. Todos sabiam tudo do campeonato carioca e pouco dos gaúchos.  No Colégio Marista, Carlos Wilson Schroder organizou time de futebol sob o nome de Vasco da Gama. Detalhe: só jogava no time quem fosse vascaíno. Como eu era, fui escalado na ponta-direita. Mais tarde, Carlinhos foi centro-avante destacado do Elite Clube Desportivo, dos bons tempos. Hoje, o panorama esportivo mudou por completo, é claro. Hoje, o gaúcho é Inter ou é Grêmio e nada mais.  O rádio se reinventou. Desapareceram os programas de calouros. O Repórter Esso silenciou (na televisão não deu certo). O Edifício Balança Mas Não Cai (humorismo) caiu em definitivo.  E o que virá daqui por diante, só Deus sabe.

RECEITA PARA MELHORAR – Do Espírito José Grosso, pelo lápis do Chico Xavier: “Dez gramas de juízo na cabeça. Serenidade na mente. Equilíbrio no raciocínio. Pureza nos olhos. Vigilância nos ouvidos. Interruptor na língua. Amor no coração. Serviço útil e incessante nos braços. Simplicidade no estômago. Boa direção nos pés. Uso diário em temperatura de boa vontade”.

Advogado, integrante da Academia Santo-angelense de Letras. Escreve nas edições de terça-feira. 

Email: pintojung@terra.com.br

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